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Capítulo 3


Artur e Safia seguem a viagem de volta em silêncio, até que a moça arrisca quebrá-lo:
– Não vai mesmo me contar?
Silêncio.
– Como entrou? Como se safou da maldição?!
Artur respira fundo e percebe que não adiantaria protelar. Terá que contar. A coisa era simples, mas para ele, difícil de assumir.
– Eu fiz uma oração. Foi só isso! – diz rapidamente, numa vã tentativa de se livrar do assunto.
– Oração?! Que oração? – surpresa.
– Nada demais. Só fui... sincero e Ele me ouviu.
Safia olha-o com certa desconfiança.
– Não pode ser... Tem mais coisa aí... Por que então não foi ao túmulo?
– Eu não podia entrar lá. Só fui por sua causa!
– Oh! Obrigada e me perdoe por isso! – retruca ironicamente, mas cedendo à sua curiosidade, insiste – Mas... foi bom ou ruim?
– Não sei te responder.
– Artur!
– Não quero mais falar sobre isso. É melhor descansar. Sua respiração está ficando diferente. Sugiro que procuremos um médico! – responde preocupado.
Safia concorda. Percebe que aquilo tudo também havia mexido com ele. Pensa em como ele havia percebido sua respiração diferente e começa a reparar melhor no seu guia. Sim, ele era bonito, estatura mediana, um pouco mais alto que ela, cabelos castanhos, olhos castanhos, estava bem dentro de seu peso e tinha a musculatura definida, pelo que se podia notar.
“Será que ele fez isso por mim? Ah Que bobagem!” – pensa ela. – “Acho que estava aguardando a manifestação da maldição! Quem sabe não se convenceu de que tudo era mesmo verdade?!”.
Logo que chegam ao chalé, ela vai para o quarto tomar um merecido banho. Percebe que sua respiração realmente não está normal e se lembra da maldição. Não escaparia de um médico!
“Por que fui me arriscar assim?” – pensa ela, um pouco arrependida.
 O celular toca. Ela se assusta com o toque e atende rapidamente.
– Alô, filha! Até que enfim consegui te ligar! Onde vocês estão? Está tudo bem?
– Calma, pai... tudo bem... estamos pra voltar... mas, descobrimos o lugar!
– Você está bem mesmo, Safia? Parece cansada... – ignorando a notícia.
– Ah, sim! Estou... cansada! Vou tomar um banho agora e... descansar um pouco, na volta... te conto tudo, pai! Um beijo na mãe e... no Umberto, tá? Tchau.
Safia não espera o pai responder. Desliga o celular e senta-se na cama.
– E agora? Como vou continuar... assim?


Depois do jantar, Artur e Safia vão para fora da pousada, na calçada. Os dois estão em silêncio. Comeram em silêncio. Exteriormente está tudo silencioso, mas o barulho interior está alto demais. Num esforço heroico, Safia arrisca:
– Preciso voltar lá.
– Desse jeito? Vai morrer antes de dar o primeiro passo! – prontamente.
– Acontece que... se eu não abrir o lugar e pegar o espelho... vou... morrer com essa maldição! Só posso quebrá-la... se a coisa for feita... da maneira certa...
– Tudo bem! Vai em frente! – com ar irônico – Sua missão é árdua! Convencer o seu pai não vai ser fácil, ainda por cima doente... – olhando para ela com um sorrisinho disfarçado no canto da boca, declara: – Ele nunca vai te deixar voltar, Safia.
– Eu dou um jeito... – ignorando a dramatização dele.
– Eu... não volto mais! – confessa, desta vez, sem olhar para a moça.
– O quê?! – quase grita inconformada.
– Não volto mais. Você já tem o mapa, as dicas... tudo! Se quiser, terá que ir sozinha ou arrumar outro guia. – olhando novamente para ela – Eu não posso mais. Fiz uma promessa. Sinto muito, Safia. Não podemos mais brincar com isso...
– Isso não é brincadeira! – sussurra, para não gritar, enquanto fica ainda mais ofegante. – Você vai me abandonar... a essa altura?
– Sem apelações, Safia. Eu te levo de volta e te entrego a seu pai. Recebo meu pagamento e tchau. Não quero te ver se suicidando nessa loucura! – seriamente.
– Artur!... – não sabe mais o que dizer para convencê-lo.
– Vamos viajar agora. É mais seguro. Sua respiração está piorando e eu não posso arriscar sua saúde. Vamos, vá pegar suas coisas. Procuraremos um hospital pelo caminho.
Diz isso e entra, sem dar a ela a chance da réplica. Ela obedece, mas por não ter outra opção.


















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